Aquilo não podia estar acontecendo. Há poucas horas sua vida estava perfeitamente normal e feliz - pelo menos era isso o que ELA achava. Como ela pudera viver aquela fantasia por tanto tempo? Como pudera achar que tudo estava bem?
Certamente ela estava se iludindo para não enxergar que seu casamento - e, claro, sua vida - desmoronavam a sua frente. Era muito mais fácil viver um faz-de-conta do que enfrentar a realidade. Quem precisava de psicólogos, se essas coisas viviam sendo ditas naqueles programas de televisão?
Era ridiculamente fácil quando se tratava de outras pessoas. Milhões de mulheres eram traídas todos os dias, e ela simplesmente as olhava com pena e pensava como deveriam ser idiotas por acreditarem em seus maridos canalhas. Mas tudo mudara agora, e como num sonho - mais provavelmente um pesadelo - ela entrara para aquela terrível estatística. Será que as pessoas perceberiam? Será que também a olhariam com pena onde quer que estivesse? Sabia que tal coisa era impossível, já que vivia em uma cidade onde ninguém se conhecia, mas naquela hora jurou que nunca mais saíria do seu apartamento.
- Ai, meu apartamento? - Aquele pensamento levara a outro: ela estava prestes a enfrentar a epopéia de um divórcio! Justo ela, Ana Sullivan, que sempre prezara a imagem de um casamento forte e saudável... - Idiota, você fez isso de propósito, só pode ser!
Obviamente, obrigado ele não foi, refletiu Ana. Mas, ainda assim, estava convicta de que algo muito forte devia ter acontecido. Não poderia ter se enganado tanto assim com Marcus. Ele tinha sido um homem decente, ela não teria se casado com ele se não fosse.
Mas a cena que presenciara aquela noite mudara muita coisa em suas convicções.
Era pra ser mais uma noite comum, depois de um dia atulhado de trabalho. Talvez, se Jéssica não tivesse insistido para irem ao novo restaurante do bairro, ao invés da lanchonete de sempre, ainda seria uma noite comum.
Mas não, elas foram até lá. E sim, ele estava lá. Com outra. Outra, claro, muito mais nova. E bonita - Talvez nem fosse tão bonita assim; na verdade, Ana não conseguira ver mais nada com clareza após encontrá-los.
Sempre imaginara o que faria se algo assim lhe acontecesse - não que achasse que iria acontecer, era apenas uma distração quando não havia nada para fazer. Pensara em gritar, bater, matar (a outra), chorar, correr, matar (ele), brigar, explodir, matar (a si mesma)... Mas nunca imaginara que ficaria ali, parada, durante longos segundos e então daria meia-volta como se nada houvesse acontecido e sairia do restaurante.
Pois foi exatamente o que ela fez, sob os olhares atônitos de sua irmã, Jéssica, e de Marcus. "A Outra" nem havia se dado conta do que estava acontecendo. Talvez seu cérebro não consiga processar a informação tão depressa, pensou Ana.
Só depois de chegar ao apartamento, também atônita por aquele auto-controle que nunca imaginou ter, permitiu-se desabar. Chorou durante horas, com Jéssica ao seu lado, cumprindo o protocolo "ele-é-um-canalha-que-não-merece-você" dispensado a todas as mulheres traídas. Ela a colocou na cama, ordenando que durmisse um pouco, como se tudo fosse se resolver após uma noite de sono. Mas já eram quatro da manhã e ela não fizera nada a não ser pensar e chorar. Ele nem se dera ao trabalho de voltar para casa e se explicar!
De repente, o cansaço começou a vencer o desespero e ela se viu pegando no sono.
3 comentários:
Gostei esta muito legal, quero ler o segundo capitulo em breve.
Já está quase pronto, Leandro!
Obrigada, fico muito feliz ^^
Gostei bastante! Apesar do sentimento de revolta, o gosto pelos problemas é algo que instiga a curiosidade.
Att,
Tiago Poeta
http://rascunhodeliteratura.blogspot.com/
Postar um comentário