Os primeiros meses do casamento de Ana e Marcus foram realmente maravilhosos. Ele era um cavalheiro e Ana estava certa de que fizera a escolha certa. Na lua de mel, ele a presenteara com todos os mimos que ela podia imaginar e a levara a todos os lugares que desejava visitar. Jéssica dizia a todas as amigas que só se casaria se encontrasse um marido qua a tratasse como o cunhado tratava sua irmã.
Ninguém sabe dizer se Marcus realmente era o homem divertido e maravilhoso que aparentava ser naquela época. Se o que aconteceu mudou seu pensamento ou se ele simplesmente deixou a máscara cair. O fato é que aquele homem despreocupado e alegre ficou apenas na lembrança.
Tudo aconteceu oito meses após o casamento. Eles estavam em seu apartamento novo, decidindo entre pizza e comida chinesa para o jantar, quando o telefone tocou. Marcus atendeu, e ao olhar a mudança de sua expressão, Ana soube que algo muito errado estava acontecendo. Lutando com as lágrimas e a raiva, ele desligou o telefone e a olhou. Ela nunca o vira daquela maneira, seu olhar demonstrava um ódio tão grande que ela ficou com medo. Em instantes, ela entendeu tudo.
-Um acidente... um acidente de carro. Eles tentaram salvar... mas não houve jeito. Por que não? Meu Deus, isso é alguma brincadeira? - Ana teve que esperar alguns minutos para que ele pudesse pôr sentido em suas palavras.
-Vamos, meu bem, me diga, quem estava no carro, o que houve? - a vocação para a Pedagogia estava presente em Ana desde a adolescência e naquele momento Marcus era como uma criança.
-Eles se foram, Ana! Eles nunca mais vão voltar!
-Eles quem Marcus, pelo amor de Deus! - ela já estava enlouquecendo com aquele suspense.
-Meus pais, Ana! Papai e mamãe foram embora sem nem ao menos se despedir!
Helen gostaria de levar Ana para sua casa, mas achou melhor ela não ficar em Porto Alegre, pois estaria muito perto de Marcus. Após falar com Jéssica - civilizadamente, para surpresa de todos - elas foram para a casa da mãe de Ana, em Torres. Não era o local ideal, pois lembrava os momentos bons de seu casamento, quando ainda moravam ali - após o acidente, decidiram ir para a capital, tentando deixar para trás os fantasmas do passado. Mas ao menos com a mãe por perto ela estava segura e seria mais difícil tomar uma atitude desesperada.
Jéssica estava preocupada com a atitude da mãe, e Ana estava morrendo de medo de que os pais a recriminassem, por não conseguir manter seu casamento sozinha. Os Sullivan eram apegados aos bons costumes e era difícil imaginar como se sairiam em situações como essa. Mas a recepção foi calorosa e gentil, sem perguntas demais, mostrando que a sra. Sullivan era, acima de tudo, uma mãe carinhosa.
-Fiquem o tempo que quiserem, meus amores. Essa casa sempre estará aberta a vocês. Seus antigos quartos estão esperando. Helen, querida, você não se importa de dormir com Ana, se importa?
-Claro que não, Bete. Mas será só por essa noite, para acomodar Ana aqui. Tenho meus pimpolhos me esperando em casa, se eu demorar Bruno enlouquece!
-Oh, você é tão bondosa com Ana! Bom saber que ela pode contar com pessoas assim em sua vida.
-Não se acanhe, Helen. Ana está em boas mãos aqui, não precisamos de sua ajuda. - Jéssica nunca suportaria aquela série de elogios quieta. Apesar de ter apenas quatro anos a menos que Ana, havia momentos em que parecia uma criança mimada.
-Jéssica, onde está a sua educação? Helen vem de Porto Alegre até aqui só por causa da sua irmã e você ainda a insulta?
-Tudo bem, Bete, eu não me importo. - disse Helen, se retirando para o quarto. Na verdade, se importava sim, mas sabia que a indiferença faria com que Jéssica se aquietasse, e não estava a fim de mais confusão para Ana. - Boa noite a todos.
As duas chegaram no quarto e se jogaram na cama, exaustas após um dia tão incomum. Helen queria fazer companhia para Ana, mas seus olhos não obedeciam mais aos seus comandos. Usou toda a sua força de vontade para acordar de vez em quando e dar uma olhada na amiga, que não parecia querer dormir.
Ana queria ter ficado em Porto Alegre, queria falar com Marcus. O que ele pensaria quando chegasse em casa e ela não estivesse lá? Mas estava fraca demais para resistir às suas "sequestradoras". Resolveu aceitar a viagem e, no dia seguinte, quando elas baixassem a guarda, pegar um ônibus de volta. Então encontraria Marcus esperando por ela e eles conversariam.
E se ele não estiver mais lá? Se ele não me encontrar no apartamento e for embora? - ela é tomada por pensamentos ruins, que novamente não a deixam dormir - Mas você precisa dormir, Ana... Precisa estar bonita amanhã, para reconquistar seu marido... - pensa. Se antes ela estava em dúvida quanto ao divórcio, agora esta opção parece nem existir mais. Tudo o que ela quer é reconquistar seu marido. Está ciente de que tudo aconteceu por culpa dela, que deveria ter se preocupado mais em agradar Marcus, em vez de ficar reclamando de como as coisas andavam. Ela não fora uma boa esposa, por isso ele estava com outra. - Tomara que ainda dê tempo de reverter as coisas... Tomara que ele me perdoe...
Helen a olhou de um jeito estranho. Precisava parar de pensar essas coisas, para que elas não desconfiassem e estragassem tudo. Por que todo mundo queria estragar seu casamento?