domingo, 28 de fevereiro de 2010

Capítulo III

Depois do almoço, improvisado com o que havia na geladeira, Jéssica foi embora. Não queria deixar Ana sozinha, mas já ficara fora de casa a noite inteira e precisava cuidar da sua vida. Além disso, se sentia desconfortável naquela situação - sempre fora Ana que cuidara dela e não o contrário. Passou a odiar Marcus com todas as forças, e recriminava a irmã por deixar que ele a tratasse daquele jeito. Sabia que precisava ajudá-la, mas não tinha ideia de como fazê-lo. Decidiu que, a noite, quando chegasse em casa, ligaria para a mãe para discutirem o que fazer.
Após a partida de Jéssica, Ana ficou mais perdida ainda. Precisava desesperadamente falar com Marcus, mas ele havia desaparecido. Lutara durante horas com seu amor-próprio, e quando enfim ligou para o celular do marido, ele não a atendeu. Sabia que não devia fazer aquilo, que devia esperar que ele a procurasse e se desculpasse, desesperado com a hipótese de perder seu casamento. Mas nada disso estava acontecendo, e isso a desnorteava. Sendo assim, passou a tarde inteira tentando falar com ele. E teria continuado durante a noite, se Helen não tivesse aparecido.
Helen era a melhor companhia que alguém poderia desejar - aliás, Helen era perfeita em tudo o que fazia. Ana a via como um modelo perfeito de tudo o que gostaria de ser - linda, aqueles cachos ruivos contrastando com o verde dos olhos; conservando em perfeito equilíbrio o emprego de gerente em uma grande livraria e o casamento com Bruno, sem falar em seus dois filhos, que a faziam transbordar de amor e carinho. Elas haviam se conhecido há três anos, quando Jéssica derrubou café em uma prateleira inteira de lançamentos na livraria de Helen. Ana se apressara em cobrir os gastos, mas Jéssica fez um escândalo enorme, que só serviu para envergonhá-la ainda mais. Helen apareceu e resolveu tudo, de forma graciosa. Desde então, as duas foram criando uma relação afetuosa e sincera. Além disso, Helen fora a única que não se deixara afugentar por Marcus.
-Ana, pelo amor de Deus, o que aconteceu com você? - visto que Helen não sabia de nada, sua imagem deveria estar mesmo assustadora. Usava as mesmas roupas do dia anterior, seu rosto estava inchado e vermelho de tanto chorar e ela não havia nem escovado os cabelos pela manhã.
-Achei que a primeira coisa que Jéssica faria quando saísse daqui seria ligar para você, mas pelo jeito isso nem passou pela cabeça dela.
-Jéssica, me ligar? O caso deve ser grave mesmo! A última vez que sua irmã falou comigo deve ter sido quando nos conhecemos, na livraria! - Jéssica dizia que Helen só deixava a irmã mais infeliz, esfregando sua vida perfeita na cara dela. Ana não sabia se aquilo era por inveja da vida de Helen ou do relacionamento das duas, que era muito mais profundo que o das irmãs.
-Jéssica sempre se atrapalha quando tem que assumir responsabilidades e procura jogá-las no colo da primeira pessoa que lhe vem a cabeça.
-Ana, você vai me dizer o que está acontecendo ou não?
-É o Marcus...
-Ah, não! Ele largou você?
Aquilo surpreendeu Ana. Por que essa foi a primeira coisa em que Helen pensara? Ela poderia saber de algo e não ter contado?
-Não... O que te fez pensar nisso?
-Ai, desculpa... É que o casamento de vocês está tão... Mas realmente isso não se parece com algo que Marcus faria. Ele adora a ideia de ter uma esposa dedicada o esperando com a comida pronta quando volta pra casa a noite.
-Helen! Você faz Marcus parecer um monstro machista que está casado comigo só por eu fazer comida e lavar roupa!
-Desculpa, esqueci que você brinca de faz-de-conta no seu casamento. Ok, então façamos-de-conta que ele não é assim. O que houve, afinal?
-Encontrei Marcus com uma mulher ontem. Acho... acho que ele está tendo um caso.
-Oh, Ana... - Helen tinha certeza que isso acontecia desde que conheceu Marcus, mas sabia que para Ana aquele havia sido um grande choque. - Não se preocupe, eu te ajudo a resolver tudo. Bruno pode cuidar da papelada da separação, apesar de não ser a área dele, e você pode passar uns dias lá em casa até que vocês decidam o que fazer com o apartamento. A não ser que você queira ir passar uns dias com seus pais ou com Jéssica, você que sabe...
-Helen! - Ana teve que falar bem alto para tirar Helen de seus devaneios - Não sei se quero que meu casamento termine.
As duas amigas se conheciam muito bem. Naquele momento, Helen soube que precisava tirar Ana dali imediatamente, ou ela iria cometer uma grande besteira.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Capítulo II

O sol a acordou mais cedo do que gostaria. Jéssica estava errada, a noite de sono parecia ter piorado ainda mais as coisas. Ana nunca acordava de bom humor e se irritava com qualquer coisa que acontecesse, desde o barulho da obra ao lado até as notícias do jornal.
Levantou-se, apesar de sua cama a prender de modo quase irresistível. Precisava saber se Marcus aparecera. Olhou por todo o apartamento, mas só encontrou Jéssica dormindo no sofá. Foi para a cozinha fazer seu café e logo sua irmá entrou porta adentro.
-Jessie, ainda são sete horas da manhã! - Jéssica sempre acordava cedo, e fazia isso com um largo sorriso nos lábios e a disposição de um elefante; fato que sempre despertara tremenda inveja em Ana.
-Essa fala é minha. Você não deveria estar na cama, mocinha?
-E quem consegue dormir, com tudo isso rodando aqui dentro? Ainda parece tudo um sonho, um sonho muito ruim. A diferença é que não senti nenhum alívio ao acordar. Como ele pode desaparecer assim? Eu não mereço uma explicação?
-O que se pode esperar de alguém capaz de trair a esposa? E que explicação ele poderia dar, se nada justifica as ações dele?
-Não sei...
-Não vai me dizer que você ainda pensa em perdoá-lo? Pelo amor de Deus, Ana...
-Não, acho que não. Está tudo muito confuso, só queria saber o porquê! Queria ouvir da boca dele o que está acontecendo. Não posso jogar pela janela um casamento de 14 anos!
-Mas foi ele quem jogou tudo pela janela. Ele TRAIU você!
-Calma, não vou tomar nenhuma atitude agora. Nao no estado em que estou.
-Ok, Annie... Só peço que pense bastante antes de tomar uma decisão. Você sabe que não é só a traição, sabe que não concordamos com outras atitudes de Marcus.
Quando Ana apresentou Marcus Sullivan a sua família, todos o amaram. Se ela não tivesse casado com ele por vontade própia, desconfiava que eles a obrigariam. Mas, após algum tempo, começaram os desentendimentos e eles agora mal se falavam. Ana sofria por querer agradar a todos, mas acabava ficando sempre do lado do marido.
-Não vamos discutir isso agora, sabe que eu não gosto. Não duvido que tenham sido vocês que estragaram meu casamento, com toda essa cobrança em cima do meu marido. Quem aguenta viver em um clima como esse?
-Ah, mas claro! Você tinha que arranjar alguém pra culpar, para que o seu lindo maridinho passe por inocente na história, não é? Já estou de saco cheio disso, Ana. É difícil tentar ajudar alguém que foge da verdade como o diabo foge da cruz.
-Então por que não desiste logo e me deixa em paz?
-Porque eu te amo, sua boba, e sua felicidade é muito importante pra mim. Pra todos nós, na verdade. E eu não acredito que estamos discutindo num momento desses!
-Ah, Jessie... Por que tudo precisa ser assim? Por que a vida não pode facilitar as coisas pra mim? - E as lágrimas voltaram a tomar conta de seu rosto.

Ana nunca esqueceria o dia em que conhecera Marcus. Se ainda acreditasse em contos de fadas, julgaria estar em um deles. Linda, sua amiga desde os tempos do jardim de infância, vivia falando sobre seu irmão, mas Ana não o via desde criança, pois ele saíra da cidade para cursar a faculdade de Administração. Linda admirava muito o irmão e Ana acabou gostando dele antes mesmo de encontrá-lo.
Quando Linda a convidou para a festa de formatura de Marcus, Ana deu pulos de alegria. Mas nada comparado ao que sentiu ao vê-lo. Seus olhos azuis contrastavam com os cabelos pretos, bagunçados devido às comemorações. Não fazia o gênero gostosão, mas seu corpo dava a impressão de ter sido desenhado especialmente para ele, com tudo proporcionalmente arranjado, chegando a um resultado encantador.
Não arriscaria dizer que fora amor à primeira vista, mas ele com certeza também gostara dela e não demorou muito para que se aproximassem. Após a formatura, Marcus fora passar as férias na casa dos pais e os dois acabavam se vendo todos os dias. Após uma semana, ele tomou coragem e a convidou para sair.
Tudo com ele era maravilhoso. Inteligente, educado, lindo e dedicado - Ana se viu nas nuvens. Finalmente encontrara o homem com quem sonhara durante toda a adolescência. A diferença de idade - Marcus tinha 27 anos, enquanto ela estava completando seus 19 - só aumentava a paixão entre eles.
O romance acabou fazendo Ana se afastar de Linda, que morria de ciúmes do irmão, mas ela já estava apaixonada demais para voltar atrás. Lamentou a perda da amizade, mas não fora culpa dela. Desconfiava até que Linda estava com inveja por ainda não ter encontrado o amor da sua vida.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Capítulo I

Aquilo não podia estar acontecendo. Há poucas horas sua vida estava perfeitamente normal e feliz - pelo menos era isso o que ELA achava. Como ela pudera viver aquela fantasia por tanto tempo? Como pudera achar que tudo estava bem?
Certamente ela estava se iludindo para não enxergar que seu casamento - e, claro, sua vida - desmoronavam a sua frente. Era muito mais fácil viver um faz-de-conta do que enfrentar a realidade. Quem precisava de psicólogos, se essas coisas viviam sendo ditas naqueles programas de televisão?
Era ridiculamente fácil quando se tratava de outras pessoas. Milhões de mulheres eram traídas todos os dias, e ela simplesmente as olhava com pena e pensava como deveriam ser idiotas por acreditarem em seus maridos canalhas. Mas tudo mudara agora, e como num sonho - mais provavelmente um pesadelo - ela entrara para aquela terrível estatística. Será que as pessoas perceberiam? Será que também a olhariam com pena onde quer que estivesse? Sabia que tal coisa era impossível, já que vivia em uma cidade onde ninguém se conhecia, mas naquela hora jurou que nunca mais saíria do seu apartamento.
- Ai, meu apartamento? - Aquele pensamento levara a outro: ela estava prestes a enfrentar a epopéia de um divórcio! Justo ela, Ana Sullivan, que sempre prezara a imagem de um casamento forte e saudável... - Idiota, você fez isso de propósito, só pode ser!
Obviamente, obrigado ele não foi, refletiu Ana. Mas, ainda assim, estava convicta de que algo muito forte devia ter acontecido. Não poderia ter se enganado tanto assim com Marcus. Ele tinha sido um homem decente, ela não teria se casado com ele se não fosse.
Mas a cena que presenciara aquela noite mudara muita coisa em suas convicções.
Era pra ser mais uma noite comum, depois de um dia atulhado de trabalho. Talvez, se Jéssica não tivesse insistido para irem ao novo restaurante do bairro, ao invés da lanchonete de sempre, ainda seria uma noite comum.
Mas não, elas foram até lá. E sim, ele estava lá. Com outra. Outra, claro, muito mais nova. E bonita - Talvez nem fosse tão bonita assim; na verdade, Ana não conseguira ver mais nada com clareza após encontrá-los.
Sempre imaginara o que faria se algo assim lhe acontecesse - não que achasse que iria acontecer, era apenas uma distração quando não havia nada para fazer. Pensara em gritar, bater, matar (a outra), chorar, correr, matar (ele), brigar, explodir, matar (a si mesma)... Mas nunca imaginara que ficaria ali, parada, durante longos segundos e então daria meia-volta como se nada houvesse acontecido e sairia do restaurante.
Pois foi exatamente o que ela fez, sob os olhares atônitos de sua irmã, Jéssica, e de Marcus. "A Outra" nem havia se dado conta do que estava acontecendo. Talvez seu cérebro não consiga processar a informação tão depressa, pensou Ana.
Só depois de chegar ao apartamento, também atônita por aquele auto-controle que nunca imaginou ter, permitiu-se desabar. Chorou durante horas, com Jéssica ao seu lado, cumprindo o protocolo "ele-é-um-canalha-que-não-merece-você" dispensado a todas as mulheres traídas. Ela a colocou na cama, ordenando que durmisse um pouco, como se tudo fosse se resolver após uma noite de sono. Mas já eram quatro da manhã e ela não fizera nada a não ser pensar e chorar. Ele nem se dera ao trabalho de voltar para casa e se explicar!
De repente, o cansaço começou a vencer o desespero e ela se viu pegando no sono.

Olá, pessoal!

Em primeiro lugar, sejam bem-vindos ao meu blog/livro!

Aqui vou postar cada capítulo do meu novo livro - Uma Vida a Encontrar - e espero que vocês leiam, divirtam-se, emocionem-se, enfim, que ele traga qualquer coisa de bom para a vida de alguém - isso já é o suficiente.

Convido-os para participar do livro, se quiserem. Cada capítulo será escrito e publicado em seguida; portanto, se tiverem sugestões, podem enviar um e-mail! Toda opinião será bem-vinda.

Então, boa leitura, e obrigada pela visita!